Entrevista de Sérgio Xavier à Alagamares
NOTA BIOGRÁFICA: Sérgio Xavier tem 28 anos, vive em Rio de Mouro e é dirigente associativo. É licenciado em Arquitectura pelo Instituto Superior Técnico (IST, 2006) e é Designer Multimédia pela Universidade Católica Portuguesa (2007). Colaborou e coordenou nas primeiras Semanas da Arquitectura do IST, com o NUCLEAR (Núcleo de Estudantes de Arquitectura do IST), evento que, até hoje, se realiza anualmente. Fez duas longas viagens pela Europa, sozinho. Colaborou com arquitectos como Manuel Vicente ou João Santa-Rita. Trabalhou como arquitecto em Split, Croácia (2006). Foi secretário e assessor da candidatura da Lista C aos Órgãos Nacionais da Ordem dos Arquitectos (2007). Em 2006 foi co-fundador de um grupo informal de jovens que, em 2008, tornou-se na associação Dínamo, à qual se dedica a tempo inteiro, como voluntário e Presidente da Direcção; adora fazer o que faz e espera poder continuar a fazê-lo por muito mais tempo.
1-Como surgiu a ideia de criar a Dínamo em Rio de Mouro?
A Dínamo nasceu de uma conversa de café que remonta a 2006; todos os presentes, cada um à sua maneira, sentiram vontade de contribuir activamente para uma melhor realidade sócio-cultural no sítio onde crescemos e vivemos: Rio de Mouro. Este foi o primeiro momento de cidadania do colectivo da Dínamo - o ímpeto de todo um grupo de jovens para a constituição de uma associação sem fins lucrativos. Seguimos o caminho associativo pela isenção política, pela independência financeira e pela proximidade das famílias e cidadãos que as associações permitem.
Pelo facto de termos tido inúmeras dificuldades junto do Instituto Português da Juventude (ainda hoje perduram...), a Dínamo só viria a ser finalmente constituída no dia 18 de Abril de 2008, por uma via alternativa ao IPJ.
2-A juventude actual depara-se com inúmeros problemas. Quais os que identificarias como principais?
Creio que há vários problemas principais, mas há de facto uns que vêm antes dos outros.
A influência do seio familiar é determinante para o saudável crescimento dos adolescentes; se hoje em dia temos cada vez mais pais sem alternativas senão trabalhar em condições precárias (e descaracterizantes) a aguentar um pequeno rendimento (que é bem melhor que o desemprego), então parece natural que os seus filhos também cresçam com um entendimento de que há uma certa inevitabilidade desta alienação. Crescer com este escudo da indiferença, não estimula ninguém a desejar um mundo um pouco melhor ou a participar na sua construção, pelo contrário, é um expoente social de resistência à mudança. Os sintomas desta inércia são conhecidos e estão perto de todos nós: pequenos jovens sentados à frente de um computador e pais graúdos sentados à frente de uma televisão - é arrepiante a constatação de quão fácil é ficar assim para sempre.
Mais conjunturais que a educação familiar, são as desigualdades económicas (acentuadas pela crescente taxa de desemprego) que impossibilitam os jovens mais desfavorecidos de aceder à Educação, à Saúde, à Informação, à Mobilidade, etc.; não há factor mais significativo para a exclusão social do que as desigualdades económicas. Os standards de vida estão a mudar já há algum tempo; uma geração inteira de jovens (particularmente os mais desfavorecidos) passará para a idade adulta semi-perdida, sem casa, sem emprego, sem filhos, com as suas expectativas liquidificadas. É difícil prever que efeito a curto prazo terá este fenómeno social na sociedade civil; espero que esta latência juvenil conduza ao desfecho mais criativo (e positivo) possível.
Finalmente, mas não menos importante, o défice democrático instituído alimenta nos jovens a vontade de não Participar. É para mim uma feliz surpresa ver como, nas últimas eleições europeias, jovens partidos cresceram nas percentagens de voto; isto, à partida, significa que há mais jovens a votar. A ser desta forma, atravessamos um tempo em que os jovens estão a transitar de uma atitude eleitoral indiferente para uma outra mais reactiva, ou seja, não querem perder a oportunidade de participar. Também o último referendo para a Lei do Aborto (2007) foi um forte mobilizador de participação juvenil. Estes são sinais importantes que não deverão ser desprezados por ninguém.
É lamentável que este défice democrático seja muitas vezes fomentado pelos principais protagonistas da nossa Democracia: a corruptividade ministerial (que deita por terra todo o credo num país melhor), a auto-indulgência parlamentar (que continua a patrocinar as quesílias partidárias e os benefícios dos partidos em prol dos trabalhos de interesse nacional), a disfuncionalidade da Justiça portuguesa (que demora desencorajadoras gerações a despachar simples processos), a impermeabilidade das autarquias locais (que se rodeiam de trincheiras de burocracia anti-cidadania), são algumas das sinergias que degradam a democracia, em vez de a capitalizar. É perante este cenário que estão deparados os jovens eleitores do nosso país; é perante este cenário que os jovens portugueses decidem se participam, ou não.
3-Há disponibilidade para o associativismo? E em que vertentes?
Sou da opinião que, enquanto houverem em nosso redor coisas que possam ser melhoradas por nós, haverá sempre uma disponibilidade para o associativismo, nem que seja adormecida.
O que talvez seja mais importante de entender é que a actividade associativa, pelo seu comum e elevado grau de precariedade, requer uma grande resistência por parte de quem a pratica. No caso concreto do associativismo juvenil (que vive da renovação e newcomers) a instabilidade acentua-se ainda mais e a delicada filigrana do trabalho colectivo é mais susceptível de viver em (e dos) solavancos. Uma das perícias dos responsáveis associativos passa precisamente por conseguir manter um grupo unido desde o princípio até ao fim de um projecto/actividade, sem que este/esta tenha um desfecho inconsequente. Alguns jovens chegam muito entusiasmados à Dínamo, começando a desenvolver projectos apoiados que depois abandonam assim que encontram a primeira dificuldade - disponibilidade sim, resistência, menos, devido à precariedade. Notamos uma ascendente facilidade em deixar de acreditar em causas, ideologias, sonhos (especialmente quando não se é remunerado por isso...).
O código genético da nossa sociedade é o das trocas; é difícil encontrar pessoas que dão sem pensar no que vão receber, mais difícil é encontrar pessoas que o fazem sempre.
Ainda assim, a história demonstra que não é este código genético que impede ou limita a mobilizaçao para o associativismo. Para as pessoas, mais importante que os códigos genéticos das sociedades, é o que elas realmente gostam ou querem fazer, e esta é sempre uma via aberta para o associativismo.
Um exemplo disto é a arte como meio para praticar activamente cidadania. Esta metodologia tem-se revelado ser bastante eficaz (pelo menos para a Dínamo) na mobilização dos jovens. Os jovens querem que lhes seja dada voz, espaço e oportunidades de expressão; se assim acontecer no meio associativo, basta dar-lhes um apoio (muitas vezes apenas uma palavra de encorajamento), e coisas incríveis acontecem; não há nenhum tipo de dinamização social nas comunidades locais que tenha um potencial tão grande como aquela que pode ser feita pelos jovens; não há também agentes mais disseminadores do que os jovens - é neles que reside o vórtice entre grande parte das famílias e a actualidade da sociedade civil; é neles que reside a energia e a criatividade para novas propostas e para a reciclagem das ideias mumificadas.
Outra forma (bastante em voga) de estimular os jovens para a cidadania é a mobilidade. A Comunidade Europeia privilegia a mobilidade dos jovens em grande parte das suas Directivas e Programas de apoio; felizmente, tenho tido a oportunidade de fazer pesquisa no terreno sobre esta matéria e observo que, para além da maioria dos jovens gostar de viajar, as circunstâncias (alta e rigorosamente planeadas) que encontram depois do avião aterrar são de cariz profundamente associativo (dinâmicas de grupo, ensino não formal, partilha de experiências, pôr em prática iniciativas nas comunidades locais, etc.); passar alguns dias nestes contextos é, não só refrescante, como também uma máquina de sensibilização e mobilização para o associativismo; há com certeza muitos jovens que regressam destas viagens com poucas fotografias dos monumentos, mas com uma bagagem riquíssima em experiências, em motivação e em esperança - e isto são motes fundamentais para o associativismo e para a cidadania.
Algo urgente a cultivar nestas e nas próximas gerações de jovens é a capacidade de acreditar e de sonhar - os jovens são o futuro que, por agora, não se adivinha risonho. Se a passividade juvenil continuar a ser patrocinada pelas famílias, pelo governo, pelo poder local e autárquico, pelos media, ou, claro, pelos próprios jovens, será difícil mudar o panorama do futuro. Esta é uma escolha da responsabilidade de todos. Há quem diga que a melhor altura para tomar atitudes é sempre o agora...
4-O poder político e autárquico tem dado apoio suficiente às actividades da Dínamo?
Sim e não.
Em 2006 Dínamo enviou, enquanto grupo informal, um documento à Câmara Municipal de Sintra (CMS) que chegou às mãos de pelo menos dois responsáveis políticos. Este documento (com mais de 100 páginas) era a apresentação formal da Dínamo e um esboço para um festival sócio-cultural num dos subúrbios do Concelho: Rio de Mouro. Até hoje não tivemos qualquer resposta ou notificação por parte da CMS, passaram 3 anos. O documento foi elaborado por cerca de 40 pessoas, jovens na sua maioria.
No início deste ano, foi-nos gentilmente concedido um espaço (sala polivalente da Casa-Museu de Leal da Câmara) para a realização de uma palestra sobre a história e as estórias de Rio de Mouro. Funcionou de parte a parte e, contrariamente às nossas expectativas, a sala até se revelou demasiado pequena para o sucesso da iniciativa.
Também este ano, a Dínamo demonstrou à CMS, uma vez mais, a urgência de obter um espaço de sede (pelo menos provisório) para o prosseguimento e qualificação dos projectos desta associação juvenil. Com uma proposta concreta, fomos ouvidos por dois gabinetes municipais e por uma empresa municipal, fizemos uma visita com estas entidades a um espaço adequado às necessidades da Dínamo, mas tudo não passou de uma miragem...Rapidamente percebemos que a Dínamo era a única interessada neste projecto de estímulo à cidadania nos jovens de Rio de Mouro e que, apesar da simpatia demonstrada em cada gabinete municipal, continuaríamos sozinhos, com o nosso desamparo.
Os gabinetes municipais apontam as decisões uns para os outros e, ponto comum, apontam para a Presidência da CMS. Ora, seguidamente a estas audiências, fomos aos Paços do Concelho e solicitámos, por escrito, uma outra audiência com o Sr. Presidente da CMS. Isto aconteceu há mais de 3 meses atrás e, até agora, não nos foi endereçada qualquer resposta.
Perante esta prática activa de desresponsabilização, não se pode esperar que os jovens cidadãos do Concelho estejam satisfeitos, até porque o associativismo, quando é bem feito, dá muito trabalho; a classe política do nosso país já devia ter, pelo menos, uma cultura de não desconsiderar os movimentos associativos - mas em vez disso, ainda se encontram executivos políticos a confundir cidadania com civismo...
Só a abertura para o diálogo e a permeabilidade política poderá satisfazer o projecto juvenil da Dínamo a médio prazo; estamos interessadíssimos em que isso aconteça, de facto.
A Junta de Freguesia de Rio de Mouro (JFRM) tem também pontualmente apoiado a Dínamo, quer na abertura para o diálogo, quer nos recursos de que por vezes necessitamos para levar a cabo actividades na comunidade local. O investimento que a JFRM depositou no evento Natal Azul, promovido pela Dínamo (Dezembro, 2008), é assinalável e destacável como uma escolha corajosa. Foi dado um apoio considerável aos jovens da Freguesia e, claro está, aconteceu algo de incrível. Durante 10 dias, Rio de Mouro possibilitou e abrigou cerca de 50 espectáculos e actividades maioritariamente produzidas por autóctones voluntários. Este projecto teve uma forte componente solidária, com donativos de alimentos, assinaturas para a Amnistia Internacional, etc. Numa 1ª edição, 3000 riomourenses deslocaram-se ao Natal Azul, mesmo debaixo de compulsivos granizos; cerca de 300 riomourenses encontraram aqui oportunidade de divulgar e pôr em prática o seu trabalho. Foi muito importante esta iniciativa ter acontecido; seria mais interessante se fosse vinculativa no orçamento anual da JFRM, muitas pessoas têm perguntado: "Então e este ano há Natal Azul?".
A par disto, a JFRM não demonstrou, até agora, empenho em colaborar na resolução do problema da sede da Dínamo. Esperamos ansiosamente pela abertura desse capítulo.
5-Quais as metas e projectos próximos da Dínamo?
Neste momento, não há meta mais importante para a Dínamo senão a implantação de uma sede social dentro da freguesia de Rio de Mouro. Os jovens precisam de ter um espaço próprio para desenvolver as suas actividades com espontâneidade e flexibilidade. Uma sede social também possibilita o desenvolvimento de projectos com dimensão europeia, matéria em que a Dínamo tem investido consideravelmente. A própria gestão interna da Dínamo encontra-se extremamente difícil e morosa, porque não existe um simples espaço onde centralizar a informação e a documentação da associação, bem como para abrigar as imprescindíveis reuniões extraordinárias. Obviamente, um espaço totalmente dedicado à Dínamo permitiria atingir objectivos de continuidade que, de outra forma, são impossíveis; mais e melhores actividades, especialmente no âmbito do ensino não-formal, seria uma realidade que traria, a curto prazo, efeitos extremamente positivos à(s) comunidade(s) riomourenses, e não só. Não menos importante, este espaço empregaria jovens riomourenses com alguma facilidade. São inúmeros os impactes positivos que uma sede social da Dínamo teria em Rio de Mouro; é, de facto, uma oportunidade em que é urgente reunirem-se os esforços para a aproveitar.
Mas este cenário de precariedade não faz com a Dínamo pare. Podemos fazer menos e pior, mas fazemos. Estamos a preparar um projecto piloto para um Fórum de Freguesia; no próximo mês de Outubro vamos experimentar algo de pioneiro em Rio de Mouro, mas ainda é cedo para o divulgar. Acreditamos que, a par da discussão nacional em redor do Orçamento Participativo (OP), é hora e circunstância de começar a introduzir essa matéria em Rio de Mouro e no Concelho (com pelo menos um exemplo já em prática em Agualva). 17 a 27 autarquias portuguesas são já usuárias do OP (em Lisboa o OP já é vinculativo) pelo menos 7 Juntas de Freguesia também executam um OP desde 2007, relatando casos de grande sucesso e orgulho (como a Junta de Freguesia de Carnide). Em Portugal, os processos de OP passam indiferenciadamente pelos jovens. Não há razão para o Concelho que está a caminho de ser o mais populoso de Portugal ainda não ter tomado medidas sérias quanto ao OP; quanto menor a taxa de participação, maior a taxa de exclusão social e maior o défice democrático e maior a marginalização; a Democracia participativa está a ganhar novos modelos e dinâmicas no país e é tempo de Sintra apanhar o comboio. Nós estamos já a contar com isso e a trabalhar nisso.
O alargamento da nossa rede de parceiros europeus está também a dar frutos. Decorrente de um seminário em que estivemos recentemente na Holanda, nasceu uma interessante e sólida parceria entre a Dínamo e a Fundacja Tetru Ludowego (FTL), que desenvolve trabalho muito similar ao da Dínamo, mas com jovens nos subúrbios de Carcóvia. O intercâmbio OUTxchange, que se encontra em fase inicial de projecto, prevê que, em Julho de 2010, cerca de 15 jovens da Dínamo viajem para a Polónia ao encontro de cerca de 15 jovens polacos. O intercâmbio dura cerca de duas semanas e tem como tema central o teatro de rua dirigido às comunidades locais. Esta será concerteza uma experiência inesquecível para os jovens participantes (que, pela atitude voluntarista para com a Dínamo, bem merecem um projecto dedicado exclusivamente ao teatro) e uma oportunidade única de experimentação de metodologias e técnicas. A Agência Nacional para o Programa Juventude em Acção apostou na Dínamo com esta e outras iniciativas; a Dínamo responde da melhor maneira: trabalhando e não desiludindo. Está já a ser programada para Setembro uma iniciativa piloto para o OUTxchange. A Dínamo levará jovens a Viseu ao encontro da IPSS "Convívio Jovem", abrigo de jovens considerados em risco. Nesses dias será promovido o intercâmbio entre todos e técnicas de ensino não-formal, com via a, no fim de uma semana, se apresentar um espectáculo conjunto de rua com uma estreita relação com a comunidade local. Esta será uma experiência de fibra para os jovens da Dínamo e estamos todos muito motivados. Este projecto integrado de teatro de rua poderá acabar com a Dínamo e a FTL a apresentarem um espectáculo ao ar livre na maior praça da Europa, em Cracóvia.
Ao mesmo tempo, estamos a tentar alargar a nossa esfera local de intervenção ao Concelho, e há intenção de organizar uma Mostra de Artes Plásticas de Sintra. Até agora, temos experimentado uma abordagem extremamente participativa, em que são os próprios participantes (os artistas) a construir e discutir o projecto desde o início. O papel da Dínamo tem sido quase apenas um facilitador neste processo. Até agora, está a resultar surpreendentemente bem e, lentamente, iremos começar a ouvir falar nesta Mostra. Se resultar, será um indicador de que, de facto, a classe profissional de artistas plásticos está interessada em participação e mobilização. Espero que sim e que assim continue. Seria ideal se as classes profissionais tradicionalmente mais desfavorecidas acreditassem em bloco no associativismo. Tenho a certeza de que coisas incríveis aconteceriam, para já não falar dos efeitos económicos que estas iniciativas produzem. Os profissionais liberais, na sua generalidade, continuam a ser muito maltratados no nosso país e isso faz com que grande parte da nossa massa cinzenta criativa procure outros ventos onde assentar. Portugal corre o risco de, a curto prazo, ter que começar a importar criativos, se é que isso já não está a acontecer. Todas as classes profissionais merecem dignidade, e o associativismo também é capaz disso; razões mais do que suficientes para nos dedicarmos a esta iniciativa dirigida aos artistas plásticos do Concelho.
Um outro projecto de fundo que estamos continuamente a desenvolver e à espera da melhor oportunidade para efectivar é o Diagnóstico Social e Urbano de Rio de Mouro. Este trabalho, aliás, tem merecido um especial encorajamento por parte da Junta de Freguesia de Rio de Mouro, já que, também por lá, estão bastante interessados nos resultados deste estudo. Os objectivos são, através de inquéritos e visitas às diferentes localidades da freguesia, construir uma base de dados que ilustre a realidade social de Rio de Mouro, a uma escala de grande pormenor e com pluridisciplinariedade. Ao mesmo tempo, efectuar o levantamento do edificado e estudar os casos concretos que se justifiquem (património, edifícios devolutos e/ou abandonados, referências da freguesia, etc.). Uma vez terminada esta análise (e construídas as base de dados) irá criar-se um Sistema de Informação Geográfica online que permita a todos os interessados fazer análises a partir das suas casas ou escritórios.
Mas este projecto é de uma considerável complexidade e nunca demoraria menos do que um ano a completar. Assim sendo, estamos expectantes de conseguirmos condições mínimas para o conseguir implementar, nomeadamente instalações, dotação orçamental e parceiros. A actividade mais parecida que fizemos foi um inquérito à Cultura em Rio de Mouro, em que cerca de 50 voluntários efectuaram 1200 inquéritos directos em todas as localidades da freguesia, durante uma semana. Gostaríamos muito de poder dar continuidade a este processo em breve.
Para terminar, não posso deixar de referir o projecto de fundo que deu origem à Dínamo: o já acima referido festival Primavera Suburbana que, que acontece na Primavera, durante 22 dias em que o subúrbio se tranforma num cenário sócio-cultural de excelência, único. Este é o nosso sonho mais antigo e tem sido ele que nos tem inspirado para tudo. Está guardado até ao dia em que puder ser uma realidade e, pelo menos nesse dia, teremos a certeza que os jovens da Dínamo conseguiram acordar o dormitório.
6-O que é preciso para tornar Rio de Mouro de dormitório adormecido em cidade Viva?
Primeiro, não tratar a realidade social do subúrbio como uma lotaria de insegurança Ficar a observar os problemas sociais e esperar que situações graves aconteçam não é solução. É uma população especial e diferenciada e, como tal, deve ter um tratamento especial e diferenciado. A interculturalidade e a inclusão social terão que ser as estratégias; a cidadania activa terá que ser o objectivo. É um objectivo exigente, mas mal da Democracia (e da sociedade) se fossemos menos exigentes do que isto...
Mais, como medidas de inclusão e educação demoram tempo a produzir resultados concretos (mas que depois se mantêm efectivamente no tempo) será sensato canalizar grande parte destas energias para os jovens e dar-lhes, assim, um protagonismo revitalizador e responsável, em vez do protagonismo marginalizador e reprovatório que, por demasiadas vezes, acontece. Entender o enorme papel dos jovens na gentrificação e regeneração sociais dos subúrbios é descobrir a chave que, aos poucos, poderá atenuar e solucionar um importante conjunto de problemas que nos afectam à escala europeia, nomeadamente a apatia, a alienação, o deserto emocional, ou a indiferença; é a esta letargia social que a Dínamo chama de dormitório, os subúrbios são os cenários urbanos e geográficos onde esta letargia encontra, por excelência, o seu território de instalação.
Também sou da opinião que os subúrbios, tendencialmente, acordam sempre; ou para um lado, ou para o outro... Os presságios lançados pelos acontecimentos dos subúrbios de Paris (2005), onde ao aumento dos níveis de policiamento corresponde uma escalada de violência urbana, tornam bastante transparente o que é que pode acontecer quando os responsáveis políticos adoptam medidas fáceis de repressão. No final do ano passado (2008) essa mesma repressão levou aos conflitos em Atenas. Estes, são indicadores do que por cá pode acontecer se assim continuarmos a desfavorecer os já naturalmente desfavorecidos. Os conflitos que tiveram lugar na Quinta Fonte em 2008, tinham já sido oficialmente referenciados em 2007 como "bastante prováveis de acontecer" pelo Observatório da Imigração. No caso da Cova da Moura, a associação juvenil Moinho da Juventude, com os devidos e merecidos apoios, tem desempenhado um importantíssimo papel na dinâmica e solidariedade da comunidade em que trabalham. Já o faziam, na medida dos possíveis, antes deste bairro aparecer nas notícias...Mais uma associação juvenil local imprescindível para a regeneração e inclusão sociais.
À generosidade e voluntarismo das associações, deve-se fazer corresponder uma generosidade e interesse políticos; com este esforço combinado é possível colmatar muitos dos impactes negativos das comunidades suburbanas. A emigração, a escalada da densidade populacional, o endividamento, o desemprego, as famílias monoparentais, a falta de equipamento público, a desqualificação do espaço urbano, passam a ser ferramentas de trabalho para a intervenção social e podem conduzir mesmo a uma cultura: a uma espécie de orgulho suburbano. Quando os recursos são escassos e as possibilidades diminutas, os problemas tornam-se soluções.
O grande capital dos subúrbios está nos jovens; eles poderão catalisar a renovação nos subúrbios e criar novas metodologias de aproximação social. Eles poderão alertar e trabalhar para uma cidade viva, mais animada, mais diversificada, mais segura, mais rica, melhor. Deêm-lhes o espaço e os recursos para a saudável divergência; perca-se o pudor da mudança e aí vão eles: fazer coisas incríveis - acordar o dormitório.
7-Há um problema sério de segurança em Rio de Mouro?
Não. O que há é uma demagogia política para velar a negligência e a incapacidade em incluir (seriamente) os jovens no quotidiano das suas comunidades locais.
Não basta manter os jovens ocupados, com acesso gratuito à internet e a jogos online, é preciso que essa ocupação tenha um fim e que esse fim resulte no empowerment dos jovens e das suas comunidades locais.
Há um equívoco político quando se atribui a gestão de Pontos Já, de espaços juvenis, de casas da Juventude, etc. a entidades institucionais nacionais ou entidades de política local, como Gabinetes Municipais da Juventude. Por um lado, devido ao carácter centralizado destas entidades, é-lhes impossível ter o imprescindivel conhecimento profundo das comunidades locais e propôr-lhes projectos pertinentes, estimulantes e eficazes. Por outro lado, estas entidades não dispõem dos recursos humanos (qualificados ou não) que são também indispensáveis para pôr estas actividades em prática de forma segura e eficiente. Também a cultura da rentabilização acupunctórica dos recursos materiais de cada Freguesia não será a especialidade destas entidades de (muito) maior abrangência territorial.
A alternativa que soluciona todos estes problemas é clara e todos os dias se discute amplamente nos círculos associativos (pelo menos): a gestão das infraestruturas locais para a Juventude deve estar nas mãos das associações juvenis locais. São elas que conhecem os jovens a mobilizar; são elas que estão em contacto com as reais necessidades das comunidades locais; são elas que desenvolveram metodologias locais de ensino não formal; são elas que montaram a rede de entidades, parceiros e recursos locais; são elas que são movidas por jovens voluntários, cheios de vontade de trabalhar para fins pertinentes - isto, no mínimo, vale ouro. Excusado será dizer que, se há capacidade para, em contextos de extrema precariedade, ser uma associação, também há capacidade (e vontade) para gerir um espaço onde a associação, derradeiramente, aconteça.
A Dínamo é uma das raras associações locais com projecção internacional, e com uma capacidade de mobilização bastante assinalável e pertinente; os decisores políticos do Concelho parecem estar ainda alheados desse facto. De certa forma, considero positivo estes responsáveis políticos já não estarem alheados de um certo problema de segurança; agora, é claro que lhes é mais fácil apontar o dedo a jovens delinquentes do que assumir a negligência política quanto à tomada de medidas sérias e corajosas de prevenção da exclusão social.
Por todos estes factos, estou mais preocupado com a gravidade desta falta de visão política do que com a insegurança em Rio de Mouro.
Se a curto prazo este fenómeno político poderá conduzir a um problema sério de segurança em Rio de Mouro? Sim, absolutamente. Espero que haja rapidamente o entendimento comum de que, pelo menos neste assunto, todos queremos o mesmo.